Nova semana, novo poema... e muito por dizer. Falamos esta semana de 3023 mulheres!MÃEZINHA, António Gedeão
MÃEZINHA
A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até a puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
António Gedeão
1906-1997
Obra Completa
António Gedeão
Relógio d'Água
segunda-feira, 28 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
Um poema por semana 1
Estreou no dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, "Um Poema por Semana".
PORTUGAL, de Alexandre O'Neill, é o poema que abre este ciclo.
PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill
1924-1986
Poesias Completas
Alexandre O'Neill
Assírio & Alvim
PORTUGAL, de Alexandre O'Neill, é o poema que abre este ciclo.
PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill
1924-1986
Poesias Completas
Alexandre O'Neill
Assírio & Alvim
sexta-feira, 18 de março de 2011
Florestas e Homens
Florestas e Homens from GoodPlanet on Vimeo.
Filme oficial do Ano Internacional das Florestas: curta-metragem de 7 minutos produzida pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand (fundador da GoodPlanet e autor de Home), a convite da Organização das Nações Unidas.
O site da fundação especialmente dedicado ao Ano Internacional das Florestas, apresenta, para além do filme, notáveis posters sobre a floresta.
À conversa com ...

18 de Março às 15h30 no Auditório da ESCCB.
Licenciada em Filosofia, requentou o Conservatório de Música, executando o violoncelo. Concluiu o mestrado em Filosofia Contemporânea e o doutoramento em estética. Neste momento trabalha e reside em Bruxelas.
Tem vários artigos publicados em antologias e revistas da especialidade e é autora, de títulos de âmbito ensaístico e biográfico.
Rafa e as férias de Verão é o primeiro livro da colecção Os Livros do Rafa, de Fátima Pombo, autora de vários romances onde a música tem sempre lugar. Este jovem baterista que está a aprender a ser homem conta, na primeira pessoa, as peripécias da sua vida, principalmente aquelas que contam com a companhia de Pilar, objecto da sua paixão.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Um poema por semana
No dia Mundial da Poesia, a RTP2 estreia Um Poema por Semana:
15 poemas em 75 dias, por 75 pessoas
Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde, Ruy Belo, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Sá de Miranda, António Nobre, Alexandre O'Neill, Luís Vaz de Camões, Jorge de Sena, José Régio, David Mourão-Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny. O poema dito de segunda a sexta-feira por 5 pessoas. O mesmo poema!
Será emitido diariamente, com duas repetições por dia. Os 'dizedores' não podiam ser mais diferentes: homens e mulheres, jovens e mais idosos, estudantes, juristas, reformados, actores, portugueses, brasileiros, angolanos e italianos falantes de português – cada um com uma interpretação apaixonada e única do mesmo texto.
Gente que tem em comum gostar MUITO de poesia.
Paula Moura Pinheiro sublinhou a importância da estação fazer serviço publico e celebra o grupo heterogéneo: O programa é um duplo espetáculo, o espetáculo da palavra em poesia e o espetáculo da diversidade humana.
Um Poema por Semana vai para o ar entre programas e conta com três emissões diárias: antes das 14h30, repete às 18h30 e antes das 22h00.
Pode ver e acompanhar o programa através do site e do facebook
15 poemas em 75 dias, por 75 pessoas
Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde, Ruy Belo, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Sá de Miranda, António Nobre, Alexandre O'Neill, Luís Vaz de Camões, Jorge de Sena, José Régio, David Mourão-Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny. O poema dito de segunda a sexta-feira por 5 pessoas. O mesmo poema!
Será emitido diariamente, com duas repetições por dia. Os 'dizedores' não podiam ser mais diferentes: homens e mulheres, jovens e mais idosos, estudantes, juristas, reformados, actores, portugueses, brasileiros, angolanos e italianos falantes de português – cada um com uma interpretação apaixonada e única do mesmo texto.
Gente que tem em comum gostar MUITO de poesia.
Paula Moura Pinheiro sublinhou a importância da estação fazer serviço publico e celebra o grupo heterogéneo: O programa é um duplo espetáculo, o espetáculo da palavra em poesia e o espetáculo da diversidade humana.
Um Poema por Semana vai para o ar entre programas e conta com três emissões diárias: antes das 14h30, repete às 18h30 e antes das 22h00.
Pode ver e acompanhar o programa através do site e do facebook
domingo, 6 de março de 2011
O Pássaro da Alma

Um livro para todas as idades que nos explica de forma poética e única o que é a alma. Apela a um conhecimento do nosso mais íntimo e profundo sentir, explicando por via desse pássaro, clara metáfora, aquilo que sentimos, como o sentimos e porque o sentimos. Pela singeleza do conteúdo e pela estética do arranjo dos desenhos de Naama Golomb, é uma obra que tem ganho, desde a sua publicação em 1993, uma reputação internacional que levou a que fosse traduzida em mais de vinte cinco línguas.
Sobre a autora: "Michal Snunit, autora israelita, atingiu a fama com esta obra e, daí para cá produziu dezenas de livros dentro do mesmo estilo que receberam inúmeros prémios em todo o mundo. Tem sido considerada uma das melhores escritoras infantis contemporâneas e a sua obra originalmente destinada aos mais pequenos tem vindo a ser lida por adultos com o mesmo prazer.
terça-feira, 1 de março de 2011
Camilo na rota da Guiné
A solidariedade começa em casa, passa pela escola ... pela TSF e termina na Guiné-Bissau.
A campanha de recolha de materiais e manuais escolares, inserida no projecto "Camilo, uma escola solidária" partiu duma parceria que a Biblioteca Escolar pretende estabelecer com uma escola da Guiné-Bissau ao integrar o projecto "uma escola para todos" do grupo Na Rota dos Povos.
A campanha de recolha de materiais e manuais escolares, inserida no projecto "Camilo, uma escola solidária" partiu duma parceria que a Biblioteca Escolar pretende estabelecer com uma escola da Guiné-Bissau ao integrar o projecto "uma escola para todos" do grupo Na Rota dos Povos.
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