segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ouvimos,lemos e partilhamos ... homenagem ao Professor Ademar

"Ademar

As seis mesas estavam juntas ao centro da sala; um gravador em cima de uma delas. Um homem grande, com uma barba farfalhuda, branca, com as mãos pesadas sobre CDs e pequeninas folhas de papel cortadas.2
Ia alternando o seu olhar, com os seus óculos de ver descaídos ao fundo do nariz, entre a porta escancarada e as suas mãos agora entrelaçadas em cima dos cotovelos pousados; os alunos iam escolhendo os lugares à sua volta.

A tarde era ainda uma quente tarde de Setembro.
“Estão todos?”. Estávamos. “Quem está aqui que quer ter aulas, que faça o favor de sair por aquela porta!”. O quê?!
Todos nos entreolhámos. Mas que raio…?!
Eu já tinha ouvido falar do Professor Ademar. Fora do convencional, bastante…
Dirigiu-se ao quadro: “Eu sou o professor Ademar, mais conhecido por “Pai Natal”. Quem quiser saber mais sobre mim que vá à wikipédia e que procure por “Ademar Santos”.” Rimo-nos. Já sabíamos que o tratavam assim na escola, mas nunca nos passou pela cabeça que brincasse com isso. Wikipédia? Como?
“Vamos agora tratar das vossas apresentações.”
Nunca me esqueci. Para ele não éramos apenas um nome, não éramos apenas um número ou uma fotografia no livro de ponto. “António Luís. Quem é o António?”, “Sou eu, professor.”, “Sim, mas quem é o António?”. E um depois do outro, falou de si.

“Eu começo todas as minhas aulas com um pouco de música, seguida de um pouco de literatura e depois, claro, um pouco de Direito porque é para isso que me pagam.”
De novo, rimo-nos.
Ouvimos a primeira de muitas faixas que iríamos ouvir ao longo do ano; lemos o primeiro de muitos poemas que nos iriam alimentar o olhar.
No inicio não entendemos onde queria ele chegar com aquelas aulas de “Direito”. O que iríamos aprender além de cultura geral? Arriscámos, resolvemos esperar para ver.

Ao longo do tempo fomos entendendo que as bases mais rudimentares que nos podiam ser dadas eram o ponto de partida para investigarmos por nós próprios, para nos adaptarmos ao facto de nada na vida cair do céu. Os nossos trabalhos eram “guiados” por filmes, por alguns artigos dos livros de Direito ou outros artigos de revistas e jornais, por conversas que tínhamos, por factos históricos que nos eram narrados… pela sua música, pelos seus poemas. Por tudo aquilo que nunca pensámos.

E aprendemos. Aprendemos muito mais do que alguma vez poderíamos acreditar no inicio daquele ano. Ele sabia como nos cativar, como nos ensinar, como chamar a nossa atenção.

Deu-nos um bocadinho de si próprio, um bocadinho do mundo… e até mesmo um bocadinho de nós.

E tínhamos ainda tanto para aprender, tanto ainda para perguntar. Tantas outras coisas para partilhar, para discutir.

Tanta saudade que vai deixar, tanta falta que vai fazer."

Alunos da Disciplina de Direito, 12ºH/I

sábado, 3 de julho de 2010